16 de outubro de 2011

Homeschooling - Conceito e discussão

A idéia de homeschooling, ou ensino doméstico, significa que a criança é ensinada em casa, pelos próprios pais ou um responsável sem remuneração ou a necessidade de formação específica para tanto. Muito popular nos Estados Unidos, essa escolha ocorre por diversos fatores, como o religioso (muitos evangélicos e católicos americanos optam por essa forma de educação dos filhos por não achar que o ambiente escolar condiz com seus valores religiosos), pela liberdade de escolher um currículo mais aproximado da situação cultural da criança ou experimentar diferentes metodologias, flexibilidade de horários, mobilidade geográfica, um ensino individualizado que permite avançar ou retroceder conforme as possibilidades apenas da criança, etc. Há também uma corrente chamada unschooling, criada pelo educador John Holt, que defende a ausência de um currículo pré-programado, mas que a criança tenha autonomia sobre a escolha dos conteúdos e metodologias a serem estudados.

A opção por homeschooling não é nova. Na realidade, a Escola é que é uma Instituição recente na História da humanidade. Até a Idade Média, pais e mães assumiam o papel de professores dos filhos ensinando-lhes as técnicas de sua profissão e/ou serviços domésticos. No caso das crianças mais abastadas, era designado um tutor que, depois de passada a primeira infância, ensinava-lhe diversas ciências, como Literatura,Matemática, Astronomia, Física entre outras. "A educação em casa produziu homens como Leonardo da Vinci, Wolfgang Amadeus Mozart, Albert Einstein, Blaise Pascal, Agatha Christie, C.S. Lewis. Além desses, dez presidentes dos Estados Unidos receberam educação escolar em casa" (Júlio Severo)

No caso da Educação Infantil, a idéia de Escola é mais recente ainda. Até o séc. XVIII, a criança nesta idade não era reconhecida como um ser social. As crianças pequenas comiam, dormiam e brincavam junto aos empregados da casa, sem qualquer atenção especial, como se fossem bichinhos de estimação: a eles eram dados os restos. Não havia nem de longe a concepção de Infância tal como a pensamos hoje: as crianças, quando eram retratadas, apareciam como adultos em miniatura.

Entre o séc. XVIII e XIX foi aparecendo um olhar para o desenvolvimento infantil e a pedagogia da primeira infância. E com a Revolução Industrial surgiram as primeiras creches, destinadas a cuidar das crianças pequenas, cujas mães tinham que trabalhar o dia e às vezes a noite inteiros para poder ajudar no sustento da casa. O caráter dessas instituições era meramente assistencial: checar se as crianças estavam limpas e alimentadas (algumas ainda hoje estão paradas no tempo, é verdade). Mas com o grande avanço da Psicologia Infantil e da Pedagogia, tais instituições passaram a adotar um referencial pedagógico, objetivos educacionais, e tem se tornado locais muito bem preparados para educar, cuidar, promover o desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo. Pena haver ainda bem forte uma diferenciação social entre creche e berçário: a primeira é para os filhos dos pobres, são as creches públicas, o segundo é para a elite que pode pagar por um programa educacional de primeira linha. Acredite, nem sempre mensalidade alta é sinônimo de qualidade E nem sempre mensalidade baixa ou ausência de mensalidade é sinônimo de má qualidade.

Quando tive Vinícius, meu primeiro filho, decidi que não iria matriculá-lo numa escola antes que ele completasse 5 ou 6 anos, e iria utilizar as técnicas do homeschooling para educá-lo formalmente. Porém, quando ele fez 1 ano e 7 meses eu me vi na situação em que está a maioria das mães hoje em dia: sem babá nem empregada doméstica confiável (na verdade nem uma ruim eu tinha como opção), precisando me ausentar de casa por motivos profissionais, e com a rede social - que antigamente incluía avós, tias, comadres, vizinhas - reduzida aos contatos do facebook e orkut. Ou seja, fui aos prantos matricular meu filho na turma do maternal de uma escola. Passei meses para me recuperar da decepção comigo mesma, até que percebi que ele ía muito bem, obrigado! Estava desenvolvendo feliz e saudável, muito bem adaptado, e eu resolvi que ía parar de me culpar e sofrer, e aprender a também viver feliz com o que a vida me deu. Iria, a partir de então, trabalhar com a escola em co-participação na educação dos meus filhos.

Mas não pensem que desisti de homeschooling! Adaptei a idéia para minha realidade. Nesse meio tempo estudei muito sobre filosofias educacionais e descobri que há uma para cada gosto de cada pai e mãe do mundo, por mais excêntrico que seja. Com respeito especificamente ao ensino doméstico temos algumas considerações:

- A posição oficial do Brasil: é proibido aos pais optar pelo ensino doméstico. Oficialmente, se você deixa de matricular seu filho na escola, especialmente no primeiro ano do ensino fundamental, você pode ser preso pelo crime de abandono intelectual, previsto no art. 246 do Código Penal, que afirma: "Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa." Essa posição pressupõe que os pais não têm nem o direito nem o dever de assumir a educação intelectual dos filhos, não importa o quão dedicados e capazes eles sejam disso. E não é brincadeira, eles prendem mesmo. Minha irmã, que é assistente social, já fez várias visitas ameaçando prender pais que não matricularam os filhos. E vez ou outra, no jornal, aparece o caso de algum casal estrangeiro desavisado que foi preso. O assunto é bem polêmico como você pode ver AQUI , AQUI, AQUI e AQUI. Mas ainda é a lei: dura lex, sede lex! Quem quiser tentar, há a alternativa de tentar conseguir o direito na Justiça, mas é um caminho espinhoso. A notícia boa é que existem grupos de apoio como ESTE e ESTE para ajudar na caminhada. Também acho altamente recomendável a leitura do blog "Por uma aprendizagem natural", onde há orientações jurídicas para os pais.

- A posição de algumas correntes pedagógicas que propõem a recriar o ensino doméstico no ambiente escolar, cujo melhor exemplo é o da Pedagogia Waldorf. Você pode ler a respeito AQUI, AQUI e AQUI.

- Minha filosofia em particular: trabalho em cooperação com a escola, não delegando a ela toda a responsabilidade na educação do meu filho, mas através do diálogo, da interação com professores e diretores, estou presente no ambiente escolar me inteirando, observando e participando do que está acontecendo bem de perto, mas também valorizando tudo que lhe oferecem lá e me deixando aprender com isso, uma aliada e não uma oponente. É um relacionamento de respeito mútuo: não interfiro diretamente no trabalho deles, mas eles aceitam ouvir minhas sugestões. Demorei a encontrar uma escola aberta a esse relacionamento, mas graças a Deus encontrei e sei que você pode encontrar também sem nem mesmo ter que pagar uma mensalidade absurda pra isso. Não é a escola perfeita, até porque essa escola perfeita não existe, tal como perfeito não há ninguém na face da terra, mas atende bem as nossas necessidades, mesmo sendo uma pequena escola de bairro. Ao mesmo tempo, no ambiente doméstico, eu complemento a formação intelectual do meu filho elegendo e trabalhando os conteúdos, metodologias e objetivos que julgo importantes para ele. Importante: não fico "me amostrando" com meu filho diante da professora e das outras mães, exibindo o que ele sabe fazer, nem comparando-o com outras crianças, nem brigando para que ele seja tratado como o garoto mais inteligente da escola. Todo aprendizado complementar que ele recebe é para beneficiar a ele próprio, não o meu ego. Há quem pague caro para que a criança tenha uma formação completíssima numa instituição escolar. Mas mesmo que eu tivesse muito dinheiro, ainda escolheria eu mesma participar do processo de formação intelectual do meu filho, por acreditar demais na eficácia da metodologia materna (muito bem explorada por Doman), que transcende o intelectual, e atinge com eficácia também a formação moral, emocional, etc. Na referida escola do meu filho mais velho, por exemplo, não há aulas de música, inglês ou Bíblia. Então estou fazendo um projeto para ensinar os três conteúdos lá, aproveitando o que lhe ensinaria em casa num ambiente social saudável que só impulsiona o aprendizado (classe com poucas crianças, lugar onde ele já possui um vínculo afetivo bem formado, importância da interação entre crianças da mesma idade como forma de estímulo e descoberta em diferentes níveis, visões e caminhos no ensino-aprendizagem). Não estou dizendo para ninguém fazer o mesmo, mas foi a solução que encontrei.

- Mudar-se para os EUA ou para algum país que permita o homeschooling. Lá eles fazem testes de equivalência periódicos para aferir o desenvolvimento da criança. Tenho uma amiga cuja filha estudou um bom tempo utilizando um site desenvolvido especificamente para auxiliar os pais com os conteúdos escolares a serem ministrados em casa: tarefas, aulas, tudo online e muito bem feitinho, o pai só tem que acompanhar e complementar, caso queira.

Tenha em mente que se decidir por qualquer face do homeschooling, estará assumindo também uma grande responsabilidade. Mesmo com todo o material que é possível conseguir na internet, ainda é muito difícil organizar conteúdos, horários, e criar esquemas para que as crianças cumpram os horários e metas, mas se você conseguir, estará conseguindo também formar uma criança com autonomia e responsabilidade. No meu caso a dificuldade com metas é minha mesmo. Mas já estou feliz em dar o melhor e também alerto: se você decidir por qualquer face do homeschooling, receberá também altas doses de gratificação, o que será a motivação. Admiro demais as idéias, persistência e inteligência das mães que praticam o homeschooling no mundo, e ainda mais no Brasil, onde a decisão pode virar caso de polícia. Por isso decidi abrir a discussão aqui no blog e, aproveitando, criar uma TAG nos marcadores aí ao lado, uma lista de sites específicos sobre o assunto, bem como uma lista de links para blogs de professoras, onde pode-se conseguir bastante material prático para trabalhar com as crianças (a maioria é de Educação Infantil pois são os que mais frequento). Dê uma olhada nas caixas de links ao lado direito deste blog.

Leitura recomendada (para que optar pela escola):

Escola sem conflito: parceria com os pais
Autora: Tânia Zagury
Editora Record

4 comentários:

  1. O que eu fiz aqui em casa foi o "home pré-schooling". E minha filha mais velha só foi pra escola aos 4 anos e meio. As outras mães viam a decisão com estranheza. Mas o que elas não podiam explicar era o fato de minha filha estar mais adiantada em tudo que os filhos delas que íam à escolinha. Minha filha estava começando a ler, fazia cálculos de matemática e era exageradamente sociável. Eu fazia em casa tudo que se fazia na escola, e mais um pouco.

    Mas sabe, amiguinha, eu vivia mega cansada. Hoje olho pra trás, e não sei como aguentei, estava longe da família, e sem ninguém pra ajudar em casa. Foi ótimo pras crianças, mas eu penei um bocado, porque não tinha empregada nem babá. Foi muito pesado.
    Por isso, achei uma boa coisa vocè ter posto seu filho na escolinha. As circunstàncias eram mais do que justificáveis, e vocé precisava trabalhar. E até mesmo para a mãe se manter com mais saúde, menos estressada para com a criança, acho válido.

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  2. Tb ensino muitas coisas a minha filha em casa e confesso q por diversas vezes não perguntei se não havia posto ela no colégio cedo demais, mas hj em dia, no caso dela vejo q foi a melhor coisa q fiz, pq lá ela tem coleguinhas, já q ela não tem primos, nem aminguinhos da rua pra brincar com ela. Faço muitas coisas com ela em casa quando ela não tá na escola, mas sei que seria mais fácil e faria mais coisas se ela ainda n estivesse na escola, mas tb não sei se eu teria mantido minha sanidade e paciência. Sem contar com o fato da minha pequena ser muito teimosa e querer fazer tudo sozinha, qd ela entrou no colégio ficou mais fácil ensinar p ela, pq ao ver os colegas fazerem o dever ela tb queria fazer e aceitou melhor eu ensinar as coisas p ela, já q ela permitia q a professora a ajudasse.

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  3. Ana Júlia, gostei do seu conceito de "home pré-schooling" :-)) Outro dia vi um blog de uam mãe que tem dez filhos e fez homeschooling com todos eles. Eu acho que essa é a verdadeira Mulher Maravilha kkkkk Eu acho bacanérrrimo, tento aproveitar ao máximo todas as idéias boas, mas pra mim, hoje, não dá.

    Nanda, o contato com outras crianças é bem legal. No meu caso, como frequentamos classes de crianças pequenas na igreja, isso não era tanto um problema, mas acho triste mesmo uma criança não poder brincar com outras crianças.Acredito que o equilíbrio vale para tudo na maternidade, e só a mãe pode decidir sobre o que delimita este equilíbrio.

    Beijos pra vcs.

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  4. Sempre fui apaixonada pela educação, principalmente a infantil e os dois anos iniciais do fundamental.Ainda criança, dei aulas em casa para os meus irmãos e crianças do bairro, apenas repetindo os métodos e conteúdos que os meus professores utilizaram no meu aprendizado.rsrsrs.Tinha tudo para ser um desastre,mas o resultado até foi bom.Por fim, hoje sou estudante de Pedagogia e creio que nasci para trabalhar nessa área.Eu também não queria trabalhar até que minha filha(, hoje, com 2 anos) tivesse uns 5 ou 6 anos, mas não tive outra opção e matriculei-a na Centro de Educação Infantil Municipal próximo a minha casa com a maior dor no coração.Já tem quase 1 ano, ela já está adaptada, mas sou eu quem ainda não se adaptou.Apesar de saber que ela está feliz, e que as profissionais que cuidam dela fazem um bom trabalho, ainda me sinto uma péssima mãe.Mesmo ela já frequentando a escolinha, decidi fazer como você: complementar em casa.Ainda mais porque nas escolinhas públicas o ensino não é tão bom quanto nas boas particulares e eu quero que ela receba o melhor ensino.No entanto, por ela ser muito jovem, estou meio perdida em relação a metas, rotina de estudos e horários.Mas o seu blog me ajudou muito.Conheci ontem e não paro de ler!Obrigada por todas essas postagens!
    Náy

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