8 de janeiro de 2012

Déficit de atenção e o dia lá fora...


Continuamoas em clima de férias, curtindo o verão lindo destas paisagens nordestinas. Confesso que não sou muito fã de calor, ficar assando na areia da praia, ou me misturar à multidão histérica dos parques aquáticos. Mas ADORO o céu do verão. Já reparei que a tonalidade do azul varia de capital para capital (dentre as quais conheci), mas aqui, no Nordeste, ese azul ganha disparado em beleza, ao menos em minha humilde opinião. Sempre fui fã de tomar tempo para viajar nesse azul, perceber como muda ao longo das horas (amo os Impressionistas), cada nuance de cor, misturá-lo ao branco das nuvens...

Em outro post aí falei que sou DDA (ou TDA), ou seja, tenho déficit de atenção sem hiperatividade. Descobri isso há poucos anos, mas agora consigo entender muitas das minhas dificuldades e comportamentos quando criança e adolescente, meus dramas com relacionamentos frustrados, meu sofrimento durante a faculdade de Direito, enfim... foi ótimo para mim me entender e crescer com isso. Tenho procurado sempre me informar mais a respeito. Entei numa comunidade do orkut sobre isso, e lá vi uma discussão sobre o uso ou não do medicamente "ritalina" em crianças com DDA. Uma corrente defende o uso do remédio como meio de proporcionar mais qualidade de vida a crianças com as dificuldades típicas do transtorno. Outros o comparam à cocaína por fazer o mesmo percurso neurológico da droga ilícita, e alegam que não há estudos a longo prazo para comprovar que esta não causa danos cerebrais a estas crianças. Muitos defendem que medicar a criança é a melhor forma de ajudá-la a se adaptar à vida social e escolar e assim garantir que ela tenha sucesso na vida. Muitos a condenam taxando-a de "droga da obediência", uma forma fácil de fugir do problema quando poderiam ser utilizados outros meios de ajudar a criança, por exemplo, informando e capacitando professores, fazendo a escola adaptar-se a suas necessidades, e não o contrário.

Eu não quero entrar no mérito da questão "medicar ou não". Não entendo nada de farmacologia. Me assustam os dados que mostram que o Brasil é o segundo maior consumidor de ritalina no mundo, e que grande parte dos usuários são crianças, alguns que começam a usá-la antes dos 3 anos de idade, quando até mesmo um diagnóstico não seria preciso. Mas quero falar da minha experiência como meio de acrescentar uma reflexão ao tema. Poderia dizer muitas e muitas coisas, mas vou ser objetiva: não é nada fácil ser DDA. Não é nada fácil ser mãe e pai de uma criança com DDA. Mas é possível viver e ser feliz apesar disso. A criança é rejeitada, apontada, rotulada, criticada por colegas e professores, e tudo coopera para reforçar seus pontos fracos, seus erros, sua "inaptidão". Os pais (a mãe principalmente) são taxados de irresponsáveis, que "não tem pulso", que não sabem educar, etc.

Graças a Deus nunca tive grandes problemas na escola até o nível médio, pelo contrário, era considerada uma "nerd" por ter sempre boas notas, mas meu método de estudo sempre foi o "hiperfoco", ou seja, antes da prova eu virava madrugadas estudando e gravava tudo. Mas não conseguia assistir às aulas, aquelas chatas aulas tradicionais onde o aluno senta na cadeira e lhe empurram mil informações goela abaixo. Como na charge acima, eu sentava junto à janela, ficava olhando para o azul do céu e esquecia que estava ali, no que eu julgava uma prisão, viajando na minha imaginação já que não podia sair correndo dali. Meus pais, que não poderiam compreender esse comportamento por falta de informação, nunca se importaram porque eu conseguia, com meu método, ter boas notas, e pagavam caro para eu estudar na melhor escola da cidade na época, o que, na lógica deles, deveria suprir todas as minhas necessidades educacionais. Só quando entrei na faculdade de Direito as coisas pioraram muito (mesmo com todos os testes de aptidão indicando para mim a área de artes, o senso comum diz que uma criança inteligente deve fazer Direito, Engenharia ou Medicina). A síndrome chegou ao auge, e eu não conseguia mais estudar. Simples assim, abria o livro começava a ler e travava. Não conseguia ler mais que uma página em duas horas. Lia, relia, baixava a cabeça e chorava. Não conseguia mais "hiperfocar" porque aqueles assuntos começaram a me causar asco. Até hoje, qualquer assunto que diga respeito à área jurídica me dá agonia, arrepio. Fui uma péssima aluna. Nos último semestre, levava cola nos códigos, e colava discaradamente. Pedia para meus poucos amigos me ajudarem a fazer os trabalhos (ou melhor, fazerem por mim). Acabei o curso, mas perdi completamente minha auto-estima. Isso foi recuperado bem aos poucos, e foi no curso de licenciatura em Música que (re)descobri meu amor pela Educação. Quando criança dizia que queria ser professora, mas esqueci disso. E foi lá, nas aulas de Iniciação Musical, que o amor despertou novamente. Meus filhos foram minha cura. Me ensinaram a ultrapassar minha síndrome e ter uma vida normal. Ainda tenho MUITO para vencer, mas cresço com a ajuda deles e do meu marido a cada dia.

Agora se você me perguntar: "Você acha que a ritalina teria melhorado sua vida se você a tivesse tomado na infância, logo que começou a sentir so sintomas?", eu responderia convictamente que não. Acho que como vários outros transtornos psicológicos, há graus diferentes, e acredito que em certos casos a medicação se faz mesmo necessária para ultrapassar uma crise séria. Mas no meu caso, fui obrigada a desenvolver, por mim mesma, mecanismos internos para lidar com um mundo que era totalmetne diferente do meu, com imposições sociais e educacionais que agrediam minha inteligência, com pessoas que se aproveitaram de mim em relacionamentos de amizade e namoro, por eu ter certas incapacidades de ver as coisas de um jeito "normal". Aprendi a me defender e a conviver com tudo isso e aprendi também as vantagens de ser assim, de ter certas facilidades incomuns, de ter uma criatividade sempre elogiada, de transformar as milhões de idéias e imagens por segundo da minha cabeça tempestuosa em coisas práticas, úteis, boas. Aprendi a começar e terminar. Aprendi a me cobrar menos. Aprendi a me gostar. Aprendi a lutar e vencer meu hiperfoco que me deixava em frangalhos, e minha procrastinação que me arrasava. Aprendi a controlar a impulsividade. Aprendi a ter responsabilidade e compromissos sem viver a beira de um ataque dos nervos. Aprendi a viver... e sem a ritalina! Se a tivesse tomado, provalvmente apenas adiaria mais e mais o dia em que teria de encarar tudo isso, e me veria louca tendo que resolver os conflitos da infância, adolescência e idade adulta de uma vez só, no dia em que deixasse de usar a droga. Isso é o que se chama dependência psicológica, tão perniciosa quanto a dependência química. Vejo quanto alguns amigos meus com problemas semelhantes sofrem com isso. E não desejo para ninguém uma vida assim.

Se for necessário tratar, trate, mas procure alternativas primeiro. Certifique-se de um diagnóstico preciso, pergunte todos os porquês, busque várias opiniões especializadas e se afaste dos "achismos" de gente que não entende nada do assunto. Se nada der certo, procure vários médicos antes de começar a medicação. Mude de escola, procure um lugar com uma proposta onde a criança aprenda de maneira mais prática, mais lúdica. E se não der certo, mude de novo, e de novo, e de novo. Não se negue a andar com seu filho pelo caminho mais difícil se for preciso. E aprenda junto com ele as vantagens de ser assim: não um doente, um coitado incompreendido, mas alguém diferenciado, com muitas formas especiais de ser, ver e existir. Estimule seu filho a usar o que ele tem de melhor, enfatize isso. Converse e brigue com quem convive com ele, se for necessário. E de vez em quando, tome tempo apenas para sentar com ele e olhar para o céu azul.


Ps.: Mais informações sobre o tema, leia o livro "Mentes Inquietas", de Ana Beatriz Silva.

4 comentários:

  1. Olá Luciana,
    Adorei o teu texto.
    Não conheço ninguém com esse problema pessoalmente mas assusta-me o número de crianças que hoje em dia têm esse diagnóstico e são medicadas, pois não consigo acreditar que todas essas crianças que vêm nas estatísticas tenham realmente problemas, que precisem de medicação.
    Infelizmente muitos pais de hoje em dia seguem o caminho aparentemente mais fácil de "domarem" os seus filhos - deve ser mais fácil acalmar os pequenos com uns químicos e colocá-los em frente da TV...

    O teu post é fantástico, é o exemplo que muitos pais deviam de ler :)

    beijo
    Sofia

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  2. Achei muito interessante ouvir seu relato, pois sempre acreditei sofrer do mesmo mal. Mas, meu problema maior era no estudo mesmo, mas graças a Deus meus pais sempre entenderam isso. Eu era ótima aluna, mas tinha q estudar mais q os outros, mas mesmo estudando bastante na hora da prova eu sempre tinha vário erros por simples falta de atenção. Como vc tb fiz direito, mas mesmo tb n sendo o q eu gostava, fui bem, pq minha área é humanas, sempre falei q ía fazer comunicação social e acabei mudando depois.
    Minha mãe sempre falava q eu as vezes era meio aérea e n conseguia me focar muito nas coisas, com tempo isso melhorou, mas ainda tenho a tendência de me distrair com muita facilidade e as vezes passo como se tivesse memória curta, porque as vezes parece q não lembro dos fatos, enquanto eu só me desliguei naquele momento.
    Nunca ouvi o relato de alguém tivesse só déficit de atenção e n tivesse hiperatividade, foi legal ouvir isso de vc. Qd era criança era muito hiperativa, q criança n é? Mas foi só uma fase, com o tempo ficou só o déficit de atenção mesmo. Mas como diz aquela frase: " De médico e louco, todo mundo tem um pouco".

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  3. Sofia e Nanda, obrigada pelos comentários!
    Estava em dúvida sobre me expor, mas acho que falar desse assunto pode ajudar muita gente sim. Beijos!

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  4. Desconfio que sofro do mesmo problema.Sempre fui excessivamente distraída e vivo procrastinando todas as responsabilidades,e tive e tenho vários problemas em todos os aspectos da minha vida por isso, seja no profissional, escola(acadêmico agora)e familiar.Mas as coisas estão insusentáveis e por decidi procurar ajuda médica.

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