29 de janeiro de 2012

Os piores erros dos pais em relação à musicalidade dos filhos

Ninguém é obrigado a saber tudo. E em se tratando de Arte, também não podemos cobrar que todos os pais tenham o conhecimento técnico e pedagógico mais perfeito para educar os filhos. Eu, por exemplo, sou formada em "Educação Artística", mas minha habilitação é em música, e o pouco que sei de artes plásticas e educação aprendi por aí, em livros e blogs porque a Universidade não me preparou para isso. Já cometi muito erros, por exemplo, dar a clássica tarefinha para pintar: a árvore verde, o sol amarelo, o coração vermelho. Precisei que alguém da área me dissesse que além da coordenação motora fina, a pintura deve exercitar a imaginação, a sensibilidade, a criatividade. Por isso o sol poderia ser vermelho, a árvore amarela e o coração verde.

Então, já que estudei um pouquinho mais sobre isso, me sinto na obrigação de dar algumas dicas de como os pais devem agir quanto a educação da musicalidade de seus filhos. Vale ressaltar que a inteligência musical é algo que todas as crianças tem em maior ou menor grau. Quando devidamente estimulada, toda criança pode se tornar uma pessoa com boas habilidades musicais. Isso não depende estritamente de "talento", mas de estímular precoce e corretamente. Toda criança também, mesmo a mais "talentosa" (i.e. com inteligência musical mais aguçada), pode tomar aversão à música ou a se expressar musicalmente se receber estímulos negativos.

Também é necessário dizer que estimular a inteligência musical não significa necessariamente formar músicos. A musicalidade bem desenvolvida vai influenciar outros aspectos da inteligência, como o raciocínio lógico-matemático, a oralidade, a motricidade, o controle emocional, a capacidade de concentração e atenção, a sociabilidade, capacidade de expressar-se e tantos outros.

Há várias situações a considerar. Hoje vou colocar algumas de que lembro aqui, e quando lembrar de outras vou editando o post. Comentários e sugestões são muito bem-vindos também!

Situação 1 - A mãe dá um violaozinho de brinquedo para o bebê. O bebê começa a bater a mão no tampo do violão. A mãe diz "Você não tá tocando certo, é assim, ó" (coloca as mãos nas cordas).

Comentário: A primeira coisa a considerar é que para bebês e crianças na primeira infância não há "jeito certo de tocar". Instintivamente elas fazem a coisa certa, que é explorar o instrumento/brinquedo de todas as formas possíveis. E é bom que seja assim. É bom que ela descubra todos os sons que ela pode tirar dali. Você pode ajudá-la orientando, mostrando outras formas de conseguir sons legais: "Se você puxar com o dedidinho a corda vai sair um som gostoso!". A segunda coisa a considerar, é que bebês vão batucar em quase tudo que puderem, logo, os instrumentos apropriados para essa idade são os percussivos (tambores e afins). Mesmo que através do Suzuki você consiga ensinar violino para seu filho(a) de 3 anos, a técnica nunca deve vir em primeiro lugar. A prioridade é fazer a criança ter boas experiências com os sons e amar a música.

Situação 2 - "Você não tá cantando certo! Está errando a letra/melodia!"

Comentário - Sobre errar a melodia, até mesmo professores muitas vezes erram por chamar as crianças de desafinadas, e dizer que estão cantando errado. É preciso compreender que o canto é MUITO emocional. Quando aprendemos canto profissional compreendemos que nossa voz responde ao canto seguindo percepções e caminhos que passam pelo sentimento, e cada cantor desenvolve técnicas muito subjetivas a partir dessas percepções. Por isso ser tão taxativo com uma criança pode criar um bloqueio que a impeça de vir a cantar corretamente para o resto da vida, e mesmo tomar aversão à música. Provavalmente vão se sentir retraídas diante da oportunidade de cantar, e mais tarde dirão que "não nasceram ou não tem jeito para isso". Qualquer correção melódica deve ser feita com muito cuidado, não apontando para o desempenho da criança, mas para a música em si: "Veja, vamos subir (ou descer) mais um pouquinho esta nota aqui?", ou "Que lindo! Agora vamos ver se conseguimos cantar exatamente assim". Leve-a a perceber a própria voz (é muito bom que grave e ouça suas produções) e a tentar imitar um modelo correto, pois a audição das crianças é muito guiada pela imitação. Por sinal, se uma criança é desafinada, é porque ela tem pais ou cuidadores desafinados, uam vez que todas as crianças nascem com a afinação perfeita, e o ambiente é que as faz perder isso. Valorize bastante a produção vocal da criança, mesmo que ela não soe muito "correta". Valorize sua espontaneidade, e deixe a técnica em segundo lugar. Cantar com emoção autêntica é mais importante que uma voz perfeita. Que seria de gênios como Cássia Eller ou Kurt Cobain se não fosse assim?
Agora mais um ponto: crianças adoram criar. E isso é maravilhoso! Elas gostam de compor e arranjar em cima de melodias conhecidas. Às vezes juntam duas, três músicas diferentes numa só. Inventam letras. Cantam até a metade, depois improvisam. Cantam usando boca chiusa (fazendo mmmmm) e todo tipo de barulhinhos, onomatopéias, clique, clacs, sons com o corpo, efeitos especiais e sílabas soltas. É pena que os adultos toldem sua criatividade dizendo que estão erradas. Crianças adoram experimentar sons, e fazendo isso elas desenvolvem uma espécie de "biblioteca sonora" que seu cérebro acessará a qualquer tempo para desenvolver músicas mais estruturadas. Isso não é erro, amigos, é inteligência da mais fina espécie.

Situação 3 - "Para de fazer barulho!"

Comentário - Crianças são cientistas. E ciência às vezes faz barulho, bagunça, sujeira. A musicalidade precisa do "barulho" para se desenvovler. Compreendo perfeitamente seus sensíveis e estressados ouvidos de pai e mãe. Mas bater nas panelas e em outros objetos barulhentos é o melhor exercício para educar crianças com um ouvido inteligente. Aqui em casa essa frase está banida. Só censuro gritos porque realmente fazem mal para as pregas vocais deles. O resto do universo sonoro inteiro está liberado. Se a coisa aperta, tenho protetores auriculares de silicone que são uma beleza (à venda em lojas de esportes, na sessão de natação).

Situação 4 - "Brinquedos musicais enchem o saco!"

Comentário - Concordo! E alguns tem um volume até mesmo perigoso! Eu dou um jeitinho de abafar o auto-falante para eles não ficarem tão prejudiciais à saúde auditiva. Mas eles ainda são necessários. Primeiro que a relação causa e efeito é bem trabalhada por aqueles botoezinhos. Isso é um rudimento do que futuramente será tocar um instrumento. Segundo que a audição das crianças é muitíssimo mais analítica que a nossa. Você só consegue ouvir uma musiquinha irritante sendo tocada pela milésima segudna vez. A criança, a cada vez que ouve a música presta atenção a detalhes diferentes. Faz um mapeamento rítmico, melódico, harmônico, se for o caso, percebe a textura, o timbre, e tenta imitar aquilo. Eu sempre me surpreendo, por exemplo, com meu filho mais velho cantando as musiquinhas dos jogos de computador. Tem umas realmente complicadas, meio dodecafônicas mesmo, mas ele canta direitinho. Pra chegar onde querem elas não se importam de ouvir trezentas milhões de vezes a mesma coisa. Exercitar os sentidos e aprender são coisas bem naturais para elas... não tenha pressa de fazê-las perder isso.

Situação 5 - "Não mexe no som/DVD!"

Comentário - Difícil, né? Mas aprendi que este é um clássico caso de "se não puder contra eles, una-se a eles". É melhor ensinar a eles como mexerem no som, DVD, computador, ou outro treco eletrônico do que ficar censurando o tempo todo. Com três anos ou menos eles já são capazes de operar aparelhos que eu só aprendi (mal) aos 20. Sinal dos tempos!
Mas mais do que isso, é bom que a criança escolha. Que tenha suas músicas preferidas e as acesse. Que tenha liberdade para voltar e ouvir quantas vezes quiser sua música preferida (vide tópico anterior). Só aconselho a fazer uns backups de segurança, tá?

Situação 6 - "Você vai estudar piano porque e o instrumento mais bonito e completo."

Comentário - O estudo de um instrumento é maravilhoso e muito importante para desenvolver a musicalidade e a inteligência da criança. Há pesquisas que demonstram que crianças que estudam instrumentos precocemente tendem a ter melhores desempenhos escolares que a média dos alunos, além de obterem uma elevação da inteligência linguística e matemática (aferidas por testes de QI). Mas se você puder escolher entre aula de instrumento e aula de musicalização, prefira as aulas de musicalização. Nessas aulas a criança deverá ter contato com vários instrumentos, não apenas um. Ela vai conhecer um pouco sobre vários deles, e criar, produzir sons com eles, sem muito compromisso com uma técnica rígida nem longas horas de ensaio (não sei de onde tiram que tocar um instrumento é a coisa mais divertida do mundo - quase sempre não é). Na musicalização a criança vai poder escolher qual o timbre que mais lhe agrada, e gostar de um instrumento é muito importante para tocá-lo bem. Não escolha por seu filho, de acordo com o que VOCÊ gostaria de tocar. Dê liberdade de escolha. Pense que é como um casamento: você tem que ter pelo menos um pouco de simpatia antes de começar a relação.

Situação 7 - "Aprenda a ler partitura."

Comentário - Um amigo meu disse que o filho estava estudando teclado, mas queria tocar por cifras, como via os amigos fazerem. O pai e amãe o repreenderam, dizendo que era melhor ele tocar pela partitura, que era mais certo. O menino não tocou mais nunca. Perdeu o gosto. Queridos pais, deixem essa hierarquização de músicos "profissionais x amadores", essa guerrinha de ver quem é mais virtuosi para o mundo dos músicos. Apóiem seus filhos quando eles quiserem se expressar, e deixe-os livres para percorrer seus caminhos. Por si só a criança que aprendeu a amar a música vai sentir necessidade de aprofundar seus conhecimentos e desenvolver sua técnica. Mas não matem a paixão que dá vida à musicalidade das crianças. Lembro sempre de um poema de Olvao Bilac que diz:

"Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
(...)
O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava;
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
(...)
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta." [para escrever]

Crianças devem ocupar as maozinhas tocando, e um dia elas vão querer por si mesmas descobrir como lidar com a forma fria das partituras. Aplaudam as crianças. Elas são gênios artísticos cuja beleza o mundo vai fazer de tudo para apagar.

6 comentários:

  1. LIndo, lindo, lindo! Conordo plenamente e assino embaixo.

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  2. Gostei muito desse post. Lá em casa a gente tenta estimular Júlia com música, mas de forma q ela tenha uma certa liberdade. Tb penso em colocar ela em uma aula de musicalização infantil, já q eu sou péssima p ensinar qq coisa e como meu marido e autodidata em instrumentos e canto, ele tb n sabe ensinar. Mas de forma sutil já podemos perceber seu amor pelos instrumentos e q ela é afinadinha. Compramos um violão rosa infantil, mas de verdade q ela tanto queria, e de vez em qd ela pega ele para tentar tirar algum som, então o pai pega o dele tb e os dois "tocam" juntos. Tb percebi nela desde menorzinha uma habilidade natural p dança, q tento estimular, já q ninguém da minha família nem do meu marido tem habilidade nessa área, pois percebo q algo só dela. Ela tem me pedido p fazer balé e como ela já fez 3 anos e n foi influenciada por ninguém, estou pensando seriamente em satisfazer seu pedido.

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  3. (Sou a Emília, do quartinho da Clarissa que foi publicado no blog da Ana Julia) Ah Luciana, que post maravilhoso, principalmente para mim que sou a mais leiga no assunto (não sei nem mesmo a diferença entre cifra e partitura)! Porém... mesmo leiga, de acordo com o que vc escreveu estou fazendo tudo certinho (a formação em E.A - Artes Visuais - tem ajudado) e Clarissa vive a cantarolar o dia todo. Se passamos perto do metrô, por exemplo, ela fala "como é a música do metrô", depois, se paro no semáforo, ela pede música para o semáforo, e assim por diante! E dá-lhe mamãe cantarolando o dia todo tb, juntas e felizes.

    Abraço

    Obs.: O PAP da tenda sensorial... não esqueci, só estou esperando chegar alguém que possa me ajudar, pq comecei a filmar sozinha, no automático, e Clarissa veio "ajudar" e não deu certo!

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  4. Você é incrível!

    Muito obrigada mesmo!

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  5. MUUUITO obrigada pelos comentários, queridas. Eles me dão a maior alegria e força para continuar postando.

    Nanda, incentive a Júlia no balé sim! Nossa tarefa como pais é essa: observar que inteligência deles se destaca e incentivar.

    Emília, que fofa a Clarissa! Estou aguardando seu PAP, mas já fiz minha barraca de bambolê aqui também kkkkk qualquer dia coloco no blog, ainda estou tentando arranjar um lugar para colocá-la. Espero que sua forma de fazer seja mais fácil que a minha, pois quase desisto de tão difícil que foi!

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  6. Poxa, amiga, agora que vi. Eu "conordei", em vez de concordar.
    Mas foi de coração

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