2 de novembro de 2012

Brinquedos - Rubem Alves

Hoje não vou falar muito, mas dar a vez a alguém que falou sabiamente sobre um assunto cotidiano a nós, mães: os brinquedos e a aprendizado dos nossos filhos (e o nosso também, que aprendemos com/por eles). O texto que segue é uma reflexão para incluir a campanha "Infância livre do consumismo" aqui neste blog também. O link para a página deles vai ficar permanentemente aqui, no menu lateral.

Beijos e bom feriado, com muitos "brinquedos rubemalveanos"! 

Luciana


Brinquedos - Rubem Alves

Minhas netas: Quando eu era menino eu brincava muito. Brincar é a coisa mais gostosa. Algumas pessoas grandes têm vergonha de brincar; acham que brincar é coisa de criança. O resultado é que elas ficam sérias, preocupadas, ranzinzas, amargas, implicantes, chatas, impacientes. Perdem a capacidade de rir e ninguém gosta da sua companhia. Quem brinca não fica velho. Pode ficar velho por fora, como eu. Mas por dentro continua criança, como eu...

Naquele tempo o jeito de as meninas e os meninos brincarem era muito diferente do jeito de hoje. Hoje, falou brincar, falou comprar brinquedo. E os brinquedos se encontram nas lojas e custam dinheiro. Mas lá na roça onde eu morava não havia nem lojas. E mesmo que houvesse, eu era um menino pobre. Não tinha dinheiro para comprar brinquedos.

Eu brincava. Brincava sem comprar brinquedos. Não precisava. Eu fazia meus brinquedos. Na verdade, fazer os brinquedos era a parte mais divertida do brincar.

Já lhes contei sobre o carrinho de lata de sardinha que tenho guardado entre os meus brinquedos. Quando o vi, lembrei-me de mim mesmo, fazendo os meus brinquedos. O menino que fez aquele carrinho era um menino pobre. E eu o vejo trabalhando para fazer o brinquedo que ele não podia comprar. E imagino o orgulho que ele sentiu quando o carrinho ficou pronto. “Fui eu que fiz!“ Um amigo meu, o Vidal, me deu um caminhão que ele mesmo fez, como presente de Natal. É um caminhão tanque. O tanque é feito com uma lata de óleo deitada. A cabine, com janelas e espelhos retrovisores, é feita com uma lata de azeite. As antenas e o cano de escapamento são feitos com pedaços de antenas velhas que ele encontrou em lojas onde se consertam rádios. E as rodas, ele as fez cortando, com um serrote, fatias de um cabo de enxada, iguais às fatias que se cortam de um salame.

Para se fazer um brinquedo é preciso usar a imaginação. A imaginação é um poder mágico que existe na nossa cabeça. Magia é transformar uma coisa em outra pelo poder do pensamento. A bruxa fala: “Sapo“ e o lindo príncipe vira sapo... O menino que fez o carrinho com a lata de sardinha teve de usar a sua imaginação mágica também. Ele olhou para a lata de sardinha abandonada e disse: “Carrinho“. E foi esse carrinho que ele viu com o pensamento que fez com que ele trabalhasse para fazer o carrinho.

A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de contas que uma lata de sardinha é um carrinho. Faz de contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho de verdade. Faz de contas que o travesseiro macio é uma pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que esses bolinhos de barro são brigadeiros. Faz de contas que a minha mão com o dedo esticado é um revolver. Faz de contas que o cabo de vassoura é um cavalinho que se chama Valente. Faz de contas que esse pedaço de bambu é uma espada...

A Raquel, minha filha, tinha 4 anos. Eu a levei ao cinema para ver o ET. O cinema é também uma brincadeira de faz-de-contas. Enquanto a gente está lá a gente vive, ri e chora “como se“ tudo fosse verdade. Prestem atenção nisso: essa é uma das coisas mais extraordinárias dos seres humanos: temos a capacidade de viver e sentir coisas que não existem, coisas que são produto da imaginação, como se elas fossem reais. Quem não chorou vendo o filme O Rei Leão? Quem não ficou com raiva da Madrasta e da Drizela? Quem não torceu pelos cãezinhos dálmatas? Pois a Raquel saiu do cinema e chorou, chorou, chorou... Não houve o que a consolasse. Depois do jantar eu resolvi consolá-la. Para consolá-la eu precisava entrar no jogo de faz-de-contas. Aí eu lhe disse: “Vamos lá fora ver se achamos a estrelinha que é a casa do ET!“ Ela se levantou, animada. Mas aí, decepção. O tempo tinha mudado. O céu estava coberto de nuvens. Não havia estrelinhas para serem vistas. Pensei rápido. Uma mudança de tática era necessária. “Olha lá, Raquel, atrás da palmeira! O ET está lá“. Ela não sorriu, como eu esperava. Não entrou na minha brincadeira. “O ET não existe, papai.“, ela respondeu séria. Então eu disse: “Ah! É? Se não existe, porque é que você estava chorando?“ Ela me respondeu: “Por isso mesmo, porque ele não existe...“ Que coisa mais misteriosa, mais bonita: que nós sejamos capazes de ter alegrias e tristezas por causa de coisas que não existem.

As crianças são as que melhor sabem brincar o jogo do faz-de-contas com a imaginação. Os grandes vão perdendo progressivamente essa capacidade. Acho que é por efeito de uma doença que, creio eu, eles pegam na escola. As escolas e os seus programas não sabem o que fazer com a imaginação, porque não há formas de fazer testes de múltipla escolha. Imagine uma prova com esta questão: “Marque a alternativa certa:
( ) Um cavalo verde;
( ) Um cavalo com chifre no nariz;
( ) Um cavalo com asas;
( ) Um cavalo com tronco de homem;
( ) Um cavalo falante.

Parece absurdo. Mas todos esses cavalos são personagens da literatura. Pergunte ao seu pai; ele tem obrigação de saber. À medida que as pessoas vão crescendo elas vão perdendo a capacidade de imaginar. Os adultos acham que quem imagina é meio doido. Uma vez vi um filme com os quadros pintados por um homem que alguém (deve ter sido um parente dele) mandou trancar num hospital de loucos. Eram quadros absolutamente fantásticos. Enquanto o filme mostrava os quadros a voz de uma psicanalista invisível ia interpretando as telas para mostrar a doideira do artista. E a maior prova da sua doidice foi um quadro que ele pintou de uma árvore no alto de uma montanha com um barco flutuando no céu. A tal voz não sabia que arte é uma brincadeira de faz-de-contas, onde tudo é possível. O pintor Chagal pintou uma noiva camponesa voando, e Dalí fez um retrato dele mesmo que parece uma panqueca mole mantida em pé por uma série de bengalas parecidas com ganchos de estilingue. Se é que vocês não sabem, todas as coisas que os artistas fazem são brinquedos. Na escola e na ciência as pessoas aprendem a olhar para a coisa e ver a coisa. Mas as crianças e os seus amigos artistas olham para as coisas e vêem outras. E é assim que surgem as obras de arte e os brinquedos, que são a mesma coisa.

Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a obra de arte é o artista. Para isso ele tem de saber usar as ferramentas apropriadas: martelo, cinzel, pincel, tinta... Eu, para fazer os meus brinquedos, tive de aprender a usar ferramentas. Aprendi a usar o canivete, a afiar o canivete, a usar o martelo (é uma delícia pregar um prego numa tábua mole, sem entortar...), o serrote, o alicate, as agulhas, os barbantes, a régua, as cordas, o fogo. O fogo tinha múltiplos usos. Um arame em brasa serve para furar um bambu. E o fogo era indispensável também para fazer ferver a mistura de água e polvilho com que se fazia grude, necessário para colar o papel de seda dos papagaios. Me cortei muitas vezes, martelei o dedo, me feri com o serrote e a agulha, me queimei. Mas não há jeito de aprender a usar as ferramentas sem se machucar. E aprendi a cuidar dos meus ferimentos, sem precisar chorar.

Fazer um brinquedo é um trabalho que se faz com prazer, sem precisar que alguém mande. Tudo que se faz com prazer é brinquedo. Ninguém tem preguiça de trabalhar fazendo um brinquedo. Quando a gente está com preguiça de trabalhar (ou de estudar) é porque aquilo que se está fazendo não é brinquedo, é trabalho forçado. Não é coisa que dê prazer.

(Correio Popular, 10/03/2002)


Li o texto e fiquei com saudades da mobília com caixa de fósforos que eu arrumava em caixas de sapatos, e dos cavalinhos feitos com maguinhas verdes e galhos secos que eu fazia embaixo de uma mangueira.
 

4 comentários:

  1. adoro Rubem Alves, não conhecia esse texto dele, um primor!!!
    sobre a infância livre do consumismo, também apóio essa idéia...Levei meus filhos na 1a. Feira do troca aqui em Brasília, amamos ver toda aquela criançada trocando brinquedos, sem ter que gastar um centavo por isso! É disso que precisamos, crianças conscientes, mais presença e menos presentes!!!

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  2. Obrigada pelo comentário, Erica! Estou pensando em fazer uma feira de trocas com meus alunos também, agora pelo natal. Beijos!

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  3. AMEI! Dizer mais o quê? Está tudo aí, nessa palavrinha que parece tão simples, corriqueira, mas não é.Seu blog é lindo, sensível, feito com amor.
    Sim, amor, pois que sem amor a vida não tem valor. Beijo no coração bonito

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  4. Lu, o verbo não flui como deveria para descrever, com precisão, o deleite que seu blog me proporciona. O filhote dorme e, com avidez e voracidade, incursiono neste inesgotável emaranhado de conteúdo riquíssimo, até que um miado rouco me lembra da maravilhosa existência desse serzinho que me motiva a buscar mais e mais.Parabéns! Você é fantástica! Muito obrigada!

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