30 de abril de 2014

Quais os melhores livros para crianças de 6 a 10 anos?

Nos grupos sobre educação dos quais participo aprendo muito e conheço gente que me ensina demais. Uma dessas é a querida Lorena Arbex, que embora não tenha blog, faz a diferença na vida de muitas pessoas com suas dicas e experiência como mãe educadora e, sobretudo, pesquisadora. Foi num papo com ela que me dei conta que ainda não tinha uma ideia muito boa de que livros oferecer ao meus filho de 6 anos para garantir uma leitura rica em qualidade.  

No meu post anterior dei várias dicas de livros para crianças até 6 anos ou que estão em fase de alfabetização, e afora todos os ótimos livros literários que existem pra essa faixa etária e devem ser lidos pelos pais, a lista que fiz privilegia o desenvolvimento da leitura autônoma da criança. Mas no caso de crianças já alfabetizadas há outros fatores importantes a considerar além das questões linguísticas, especialmente o ganho cultural. Afinal, essa é uma das funções mais nobres da leitura: educar culturalmente.

Existem muitas opções para essa faixa etária que visam entreter. Não sou radical nesse sentido: acho que uma leitura leve e divertida é bem-vinda, desde que não se torne o principal tipo de leitura da criança. Ou seja, eventualmente compramos gibis para Vinícius ler, mas me sinto responsável por incentivar que ele leia livros que ofereçam mais conteúdo cultural e exijam mais de sua habilidade como leitor. Perceba que temos hoje uma geração de jovens e adultos que se declaram "fãs de livros", mas cuja leitura se resume a livros superficiais e a lista de mais vendidos. Mais uma vez afirmo que, mesmo compreendendo que há lugar para esse tipo de leitura, a leitura se presta a ir muito mais além da mera leitura. Ler e achar um livro bom é uma sensação ótima, mas volátil. Há, no entanto, um tipo de leitura que exige reflexão, exige um esforço de mente e espírito por parte do leitor, e é esse tipo de leitura que marca a psiquê, que transforma a vida e a forma de ver o mundo. Quem nunca se sentiu verdadeiramente tocado por um livro a ponto de passar dias, semanas ou até anos sob a influência daquela leitura, não pode afirmar que é um verdadeiro "fã de livros".

Lembro perfeitamente que isso aconteceu comigo quando li "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, aos 12 anos. Não entendi nem metade de toda a riqueza literária que estava ali diante de mim, mas terminei o livro com a sensação de que algo dentro de mim mudara. Todas as lacunas do entendimento, que ficaram por causa da minha pouca experiência de vida, foram sendo preenchidas mais tarde, quando voltei ao livro por outras vezes, sempre redescobrindo novas nuances. Mas foi muito importante para mim ter acesso a esse livro naquele momento em minha vida, porque o contato com aquela narrativa nova e intrigante determinou todo o meu gosto literário daí por diante. E assim passei a outros livros igualmente marcantes ao longo de minha adolescência: Érico Veríssimo, Drummond, Quintana, Linspector, Lygia Fagundes Telles, Garcia Marquez, Victor Hugo, Oscar Wilde, Dostoiévsky,  Proust, tantos outros, cada um me assombrando e deixando em mim sua marca indelével. Posso contar a história da minha adolescência só lembrando dos livros que li. Até os 25 anos minha avidez por conhecer e desafiar a mim mesma a ler grandes autores era tanta que se alguém for atrás do meu  histórico de livros nas bibliotecas das faculdades que cursei, vai ver que 96% dos meus empréstimos eram livros de literatura (o resto era pra estudar pra prova kkkk). Ainda bem que aproveitei muito bem esse tempo, já que agora minha leitura é prioritariamente técnica (livros de Educação ou sobre o assunto), sinto saudades do turbilhão de emoções que vivi junto a esses livros! Posso afirmar com segurança que eles contribuíram muito para definir quem sou hoje. E como eu queria partilhar com meus filhos essa dádiva!

Tudo que li seguiu unicamente minha intuição. Adoro cheiro de livros, e eu os escolhia pelo faro mesmo. Mas hoje, como mãe, me sinto na obrigação de dar uma orientação que eu não tive, e que teria facilitado muito minha vida e me poupado de certos "desgostos literários".  Assim, com muito cuidado e sempre disposta a repensar meu posicionamento, elaborei, a partir de minhas próprias análises e de conversas com gente mais culta e experiente que eu (como a Lorena), essa lista sugestiva de tipos de livros que podem ser oferecidos à criança a partir dos seis anos, quando ela já lê com fluência e está preparada para novos desafios. Se você tem outras sugestões, por favor, deixe-as nos comentários abaixo que eu atualizarei o post sempre que achar necessário. Há muitas controvérsias sobre a ordem em que esses livros seriam apresentados, eu segui minha própria lógica (este post é uma sugestão de mãe, não a última palavra de uma especialista), pensei numa leitura de compreensão mais fácil para mais difícil, ou simplesmente uma divisão em categorias, que podem até mesmo ser apresentadas simultaneamente, mas acho que cabe a cada pai ou mãe certificar-se de sua própria lógica e fazer sua própria lista. Quem quiser ler mais sobre o assunto pode buscar esse livro aqui:



1 - Ana Maria Machado
Como visto do post anterior, é com ela que a criança pode começar a aventura no mundo literário. Seus livros com palavras simples conduzem ao gosto pelo ler, e além do caráter didático, há histórias que cativam os pequenos por falar de temas que têm a ver com sua realidade. Uma de minhas grande emoções foi compartilhar com meu filho os livros "bisa Bia, Bisa Bel" e "Menina bonita de laço de fita", que tanto me marcaram.
2 - Poesias
Tão cedo quanto possível, a criança deve ser incentivada a apreciar esse gênero. Vinícius de Moraes, Cecília Meirelles e José Paulo Paes costumam ser as iniciações clássicas. Mas há muito para se pinçar em Quintana, Leminski, Pedro Bandeira e tantos outros autores de poesia infantil e coletâneas específicas para esse público. 

3 - Contos
A partir de seis anos a criança já começa diferenciar bem fantasia da realidade. Mesmo que já conheça algumas histórias, ela terá mais ferramentas cognitivas e emocionais para aprofundar seu contato com os contos clássicos (Charles Perrault, Irmãos Grimm e Andersen) e fábulas (Esopo, La Fontaine). 
A editora Todolivro tem uma linha dedicada só aos clássicos, alguns com preços bem acessíveis, VEJA AQUI.
 
 

4 - Lendas
Em certo momento a criança começa se interessar mais enfaticamente por histórias que remetam a elementos espirituais ou metafísicos. É a vez das lendas brasileiras (Câmara Cascudo e coletâneas dirigidas especialmente a crianças), lendas indígenas, lendas de outros países, mitologia grega e nórdica. Ilíada e Odisséia foram reescritos com uma linguagem apropriada para crianças por Ruth Rocha. Monteiro Lobato escreveu "Os doze trabalhos de Hércules" e o "Minotauro". Existem outros títulos dirigidos ao público infantil como ESTE e ESTE. Tem também a Bíblia: mesmo quem não a vê como livro sagrado, tem a responsabilidade de apresentá-la como livro histórico ou pelo menos cultural, uma vez que a criança vai se deparar sempre com elementos da cultura cristã na nossa sociedade. Mas se sua família for cristã, aconselho a apresentar as  histórias bíblicas desde bebê, e não apenas junto com as lendas, para que a criança perceba que as histórias ali contidas são verdadeiras, não apenas mais um conto. Para diversos formatos de Bíblias para crianças com preços justos, aconselho uma visita às livrarias Luz e Vida (estão na maioria das grandes cidades do Brasil), e ao site da Sociedade Bíblica do Brasil.


5 - Monteiro Lobato
Sem entrar em questões ideológicas, Monteiro Lobato foi um marco da literatura infantil brasileira. E algumas de suas histórias, ricas da cultura brasileira, podem ser experiências incríveis para os pequenos leitores. Clarice Linspector que o diga.
 
6 - Biografias
O contato com os livros de fantasia não podem tirar da criança a capacidade de se envolver e comover com a vida real. As biografias de grandes personalidades podem ter o efeito de inspirar uma vida inteira. Crianças gostam de ter modelos para admirar e imitar, é bom que tenha acesso aos melhores.
A série "Crianças famosas" é um ótimo exemplo de biografias para crianças.
Uma amiga querida, a Débora, também me fez descobrir a série "Brasileirinhos", da Editora Paulus.
Uma coletânea muito boa que adquiri foi essa da CASA publicadora: Amigos célebres - volume 1 - volume 2 . A mesma editora tem vários livrinhos para o público infantojuvenil com histórias reais de crianças e adultos que passaram por experiências edificantes. Veja AQUI.


Abaixo segue um vídeo muito interessante da homeschooler Margarita Noyes sobre a importância das biografias:

 

7 - Clássicos infantis e adaptações de grandes títulos da Literatura.
A literatura infantil é mais ou menos recente se considerarmos sua trajetória em relação à Literatura geral. Mas existem histórias que o tempo já provou serem clássicos, e que vêm cativando gerações. Mesmo com a diversidade cada vez mais apelativa do mercado editorial infantil, não podemos deixar de apresentar esses clássicos: Tom Sawyer (também existe uma versão escrita por Ruth Rocha), O Menino do Dedo Verde, Poliana, Viagens de Gulliver, Beleza Negra. Entre os brasileiros, os livros de Ruth Rocha, Lygia Bojunga, Ziraldo, Maria Clara Machado, são apenas um pequeno exemplo dos muitos autores infantis de qualidade.
Para escolher com a opinião de especialistas, veja AQUI uma lista bem interessante com outros títulos e autores, e outra lista dividida por faixa etária (02 a 18 anos) com ótimas sugestões AQUI).
Há também adaptações de clássicos da literatura para crianças: Os três Mosqueteiros, Ivanhoé, Rei Arthur, 20.000 léguas submarinas, e diversos outros títulos.  Há quem não goste de adaptações, alegando que elas suprimem grande parte do que faz o livro ser uma obra de arte. Mas o fato é que se as crianças conhecerem - e entenderem - essas histórias, ficarão curiosas e motivadas para mergulhar nos originais mais tarde. Todos nós gostamos mais de que conhecemos. Em todo caso é bom lembrar que essas adaptações NUNCA devem substituir a leitura posterior do livro original, é só uma forma de incentivar que isso aconteça. Já na adolescência deve-se dar preferência à leitura dos clássicos no original.
A Companhia das Letras tem uma coleção de clássicos infantis e adaptações para o público infantil muito interessante, veja AQUI.
A Rideel tem a coleção "Aventuras Grandiosas", com adaptações de grandes clássicos da literatura universal  para texto mais curtos (cerca de 30 páginas), você pode avaliar baixando esses arquivos AQUI (baixe pelo link do Easyshare)
A Saraiva tem algumas matérias com sugestões de títulos, veja AQUI.e AQUI.
O R7 também fez uma matéria com sugestões, veja AQUI.
Uma matéria da Livraria da Folha, AQUI.
Clássicos em inglês, para crianças, AQUI. e AQUI.


8 - Livros e séries infanto-juvenis
 Na minha época eu acompanhei a saga dos Karas, nos livros de Pedro Bandeira. Pré-adolescentes gostam de ver os próprios conflitos e preocupações retratados nos livros que leem. Ainda estou conhecendo o cenário atual sobre livros e séries, então não posso falar muito. Mas acredito que a propaganda fala por si. Séries como "Diário de um banana", "Harry Potter", "Crônicas de Nárnia", etc, recebem um tratamento comercial que dispensa aos pais uma preocupação em apresentá-las: as próprias crianças acabam, mais cedo ou mais tarde, tendo contato com elas. Na escola eles também terão, necessariamente, contato com a literatura brasileira clássica.
Lorena me recomendou uma série que Vinícius já está lendo e gostando: as aventuras de Gerônimo Stilton. Acho que vale sempre a pena dar uma checada para avaliar se os livros que as crianças estão lendo e escolhendo estão sendo realmente bons para elas. Existe um conceito bem antigo chamado "higiene mental" que me orientou bastante em minhas escolhas: jogar lixo dentro da mente não serve para nada além de produzir mais lixo, então é melhor ocupá-la com o que houver de melhor. Nesse sentido os pais sempre poderão opinar e aconselhar. Se a criança foi educada com uma boa base, ela logo perceberá a diferença entre o que tem boa e má qualidade.


 Daí por diante é possível que eles façam questão de escolher sozinhos todos os seus livros, mas já terei a consciência do dever cumprido. Como ainda estou iniciando nessa jornada, não estou bem certa de que a ordem cronológica deve ser essa, mas com certeza quero poder apresentar esse conteúdo aos meus pequenos. 

Sobre gibis e revistas infantis
Aqui em casa temos três momentos de leitura diária: pela manhã, ao acordar, eles fazem a leitura devocional (bíblica). Depois que chegam da escola, tomam banho e almoçam é hora de relaxar, então eles podem escolher o livro que quiserem. Antes de dormir eu escolho os livros para eles lerem ou para lermos juntos. Nessa leitura livre à tarde, deixo gibis e revistas (Recreio) disponíveis. Acredito que são um bom estímulo à leitura também, desde que não sejam a única fonte de leitura da criança. Meus pequenos gostam mas não dão preferência: escolhem outros livros também, espontaneamente. É apenas mais um gênero com que têm contato. Mas não podemos ignorar que mesmo esse tipo de leitura leve tem sua influência na mente das crianças. A revista Recreio tem artigos legais, educativos, mas também traz muita coisa comercial e propagandas. Os gibis, por vezes, usam de palavras e ações que podem não condizer com os valores que a família vive. Vale a pena ficar sempre de olho e usar de bom senso.

3 comentários:

  1. Oi, Luciana! Descobri seu blog há pouco tempo, quando pesquisava sobre como introduzir o xadrez na vida do meu filho com 5 anos, e estou encantada! Que conteúdo rico! Gostaria de saber se você ministra aulas particulares de musicalização infantil, ou se conhece algum profissional que o faça. Na escola de meu filho não há aula de música. Moro em Recife. Meu e-mail: leopoldinaduarte@hotmail.com

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  2. Achei muito interessante e completo o seu blog, cheio de dicas para os pais ajudarem seus filhos a aprender. Queria convidar você para conhecer o filholeitor.com.br, onde reuni atividades que fiz com meus filhos pequenos e que ajudaram eles a aprender e a gostar de ler.

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  3. Oi Luciana, quando eu era criança não tinha muitas condições financeiras, e as escolas públicas onde estudava, no Nordeste, não tinham muitos livros, então comecei gostar de ler com os gibis da Mônica. Esperava ansiosamente quando minha mãe recebia o salário e comprava um gibi novo que eu relia o mês todo. Foi muito importante pra mim. Parabéns pelo seu blog, encontrei agora e estou muito feliz com tanta informação. Grande beijo.

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